Venho sentido o desejo de escrever o dia inteiro, mas me contive até esse momento, quando estaria sozinha em outra cidade. Sozinha, entediada e, acima de tudo, sentindo sua falta.
Estou agora na sala da Casa da Praia, escutando a conversa embriagada dos adultos lá fora. Sim, adultos. Sempre serão adultos para mim. Um pouco pelos seus assuntos mundanos como dinheiro e pertences, um pouco pelo seu eterno modo conformado de viver a vida. Trabalhar. Comer. Dormir. Existir. Eu nunca serei assim.
O dia passou como um passar de páginas de um livro pouco interessante quando você foi embora. Lentamente organizei e limpei objetos visíveis na casa, observei minhas coisas e li um pouco. Ler sempre me causa um prazer e uma paz que mal posso expressar. É quase como o prazer de sonhar, acordada ou não. Uma válvula de escape.
É difícil escrever com o barulho das conversas se misturando ao som dos meus dedos sob o teclado, que não me permitem escutar meus próprios pensamentos. Por outro lado, li Entrevista com Vampiro no meio deles facilmente, como se estivessem à milhas de distancia. Sente a sutil diferença?
Arrumei minha bagagem com pouco interesse, sem saber ao certo o que levar. Pensei no que precisaria para passar duas noites tão longe de casa, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi você. Pensei então no anel que me deu, no computador e no meu colar de fada. O anel para olhar antes de dormir, e imaginar que você está aqui comigo. O computador para ler e escrever, já que não tenho livros novos e minha agenda está reservada para o ano que virá. E meu colar de fada para lembrar da mágica que existe, em mim e em tudo ao meu redor. Para que sinta algo especial.
É tudo que preciso.
A viagem de quase duas horas me pareceu pouco mais do que dez minutos. Despedi-me dos meus cães e gato antes de sair e bati tristemente o portão. Senti uma forte dor na coluna assim que pisei na calçada. Aninhei-me entre os travesseiros no banco de trás e comecei a pensar em Deus. Pensei em como bonita é a história de Jesus, como um menino que nasceu de uma mulher pura, como uma estrela, que tinha a única missão na vida de salvar a humanidade, com paz e amor. É bonito, de fato, como imagino em minha cabeça. É uma pena não saber desenhar. Se soubesse, criaria traços de um bebê que sorria como o sol, e meu modelo de inspiração seria você. Ele viajaria pelo céu e sorriria para todos, daquele jeito radiante.
Não consigo imaginar o menino crescer.
Acabei adormecendo imaginando esse bebe de sol, e acordei com os solavancos do carro pela estrada maltratada. A lua estava distorcida pelo velho adesivo fume no vidro, mas iluminava tudo ao seu redor.
Chegamos mais rápido do que eu gostaria, e fui levantando lentamente, com pouca disposição. Lembro que sonhei com o mar, e nada mais. Senti um gosto amargo na minha boca, que me lembrou você. “O gosto do sono pela manhã". Sorri. Meu pai desceu do carro para abrir o portão de madeira, e minha mãe suspirou aliviada por ter chegado. Aparentemente, a viagem tinha sigo longa e cansativa.
Antes de descermos, ela se virou e me mandou ficar feliz. Isso me desanimou na mesma hora. Não se pode mandar alguém ficar feliz. Eu não estava ali por vontade própria, e só pensava em entrar logo na casa, ligar o computador e ler estirada no sofá. Não que eu não goste daqui, é realmente bonito. O céu é estrelado como em um filme e se pode ver a lua perfeitamente da varanda. Do lado da casa tem um enorme lago, refletindo a escuridão da noite. O fato é que eu não gosto muito de ter que falar com pessoas, principalmente sobre assuntos forçados como trabalho ou estudos. Não gosto que se sintam obrigadas a falar comigo também, por pura falsa simpatia. Gosto sim, de ficar quieta em um canto, sentindo o prazer da solidão do silencio, sem ninguém para me incomodar.
As risadas estão ficando mais altas, resultado de uma rodada de bebida barata. Na minha frente, em cima de uma mesa pouco organizada, há santos envoltos em plástico. Jesus parece entediado.
Gostaria que estivesse aqui.
sexta-feira, dezembro 25, 2009
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