Na noite fria, um cão uivava ao longe. Sentado na varanda, um garoto observava sem interesse os vaga lumes que dançavam sobre os velhos pneus cheios d'água. Já deviam ser por volta das duas da madrugada e ainda não recebera nenhum sinal. Pois sim, deveria haver um sinal. A velha cigana que encontrara na noite anterior havia lhe garantido, e ele esperaria a noite toda se fosse necessário. Ainda podia escutar sua voz arranhada, como um sussurro em sua cabeça. "A lua amarela no ultimo dia ímpar do ano. Não durma e não coma nada. Não deixe que o percebam. Fique atento e você verá.”
O tempo parecia caçoar dele. Há quantas horas estaria ali? Seus olhos já começavam a pesar e sua barriga rugia. Já não tinha mais idéias de musicas para cantarolar. Começara a pensar que aquilo era loucura quando a primeira luz do poste se apagou.
Não chegou a dar-lhe importância ao principio. Que a iluminação de sua rua era uma droga não era bem novidade, as luzes viviam a dar defeito. O que lhe chamou a atenção foram os vaga lumes. Desapareceram. Então, todas as luzes se apagaram e veio o silencio.
Foi então que ela apareceu. Em meio a névoa e a escuridão, lá estava. No começo não era mais do que um monte de fumaça sem forma, até que pode-se perceber cabelos e nariz, tronco e mãos. Os olhos não passavam de uma sombra, com a visão fora de foco, constantemente olhando para o nada. Um lamento soprava por sua boca.
Flutuava de um lado para o outro como se procurasse algo. O menino a observava com o coração disparado e olhos vidrados, mas não ousava se mexer. Mal se atrevia a respirar. Em seu peito, uma mistura de assombro e excitação lhe davam vontade de vomitar.
Não soube dizer se era bonita ou não. Talvez fosse, sem todo aquele ar fantasmagórico ao seu redor. Cachos lhe escorriam pelos ombros e um vestido sem estampas lhe cobria o corpo. Sua expressão era de obvia tristeza.
Talvez seus pensamentos estivessem muito altos, ou quem sabe respirava forte demais, mas enfim notara sua presença. Pareceu confusa e assustada por um momento, mas logo voltou a si e deu-lhe um grito de fúria intensa, como se a tivessem escaldado naquele momento. O grito penetrou em seus ouvidos como lâminas cortantes, retalhando tudo até o fundo da sua alma. A sensação era como se estivessem pisando em seu peito, transformando-lhe em pó. Então veio o frio e tudo ficou escuro.
Em algum lugar pela noite, um cão uivava ao longe.
segunda-feira, outubro 19, 2009
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3 comentários:
Você que escreveu isso, ou é de algum livro? *_*
eu que escrevi x.x
Muito bom *-*
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